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Nunca esquecer quem produz…


Os dados recentes mostram que a produção industrial está em queda. Em julho, o Índice de Produção Industrial teve uma variação homóloga negativa de 1.4%, um agravamento em 0.3 pontos percentuais face à redução observada em junho. Na secção da indústria transformadora a queda e o agravamento foram significativamente maiores (-2.7%, face a -2.2% em junho). O Índice de Emprego na Indústria também diminuiu. São estatísticas preocupantes, atendendo ao importantíssimo papel deste setor no crescimento e desenvolvimento da economia portuguesa.

Entre as medidas aprovadas ontem em Conselho de Ministros, a redução da carga fiscal sobre o trabalho, com uma descida do IRS até ao 6º escalão, é positiva, permitindo devolver rendimento disponível à economia. Porém, há uma questão que não podemos perder de vista: só existe IRS para cobrar se houver emprego. E só há emprego sustentado se houver empresas capazes de continuar a produzir, a investir e competir, perante choques desta natureza, que pressionam fortemente as margens. Nem sempre é possível repercutir o aumento dos custos nos preços finais, sobretudo em empresas muito expostas à concorrência internacional, como é o caso da indústria transformadora. 

Esta é a dimensão que importa colocar no centro do debate!

A resposta a este choque não deve significar um recuo na transição energética, não se trata de defender a dependência dos combustíveis fósseis, pelo contrário. Deve significar que não podemos deixar ninguém para trás durante essa transição, em particular o tecido empresarial. As empresas portuguesas têm vindo a investir em eficiência energética, autoconsumo, eletrificação, energias renováveis e redução das emissões. A transição energética é necessária e constitui uma oportunidade para reforçar a sua competitividade. Mas, uma transição desta dimensão exige investimento, o que por sua vez exige empresas financeiramente sólidas. Não podemos pedir simultaneamente às empresas que acelerem a sua descarbonização, invistam em novas tecnologias, modernizem equipamentos, mantenham emprego e competitividade internacional e, perante um choque energético, absorvam praticamente sozinhas aumentos muito significativos dos seus custos. É preciso garantir que as empresas conseguem sobreviver no caminho da transição energética, esta é uma questão económica elementar.

É pelo crescimento da economia que se constroem contas públicas equilibradas e sustentadas: não esquçamos que o PIB está no denominador dos rácios do saldo orçamental e da dívida pública, e sem uma economia dinâmica não há consolidação das finanças públicas que se sustente no tempo.

Maria de Lurdes Fonseca
Economista, diretora do Departamento de Estudos e Estratégia da AEP


Nota: Este artigo reflete a opinião da autora, não vinculando a AEP