Escrita em 1604, marca, segundo Harold Bloom, o adeus à comédia de William Shakespeare, anunciando a escuridão que haveria de se abater sobre as suas tragédias finais.
Abismados por uma obra tão obcecada pelo sexo e pela morte, alguns comentadores chamaram-lhe “comédia sombria” e “peça-problema”, tentando assim dar conta da ambiguidade que a rodeia e das coisas escondidas que nos lega. Há algo de simultaneamente podre e jubiloso no reino desta Viena, repleta de personagens transbordantes de desejo, indecisas entre o ser e o parecer, a virtude e o vício, a intriga palaciana e o sentido de Estado.
Seria abusivo ver na figura de um Duque que abdica temporariamente do poder, colocando-o nas mãos de um Ângelo exterminador, um sintoma do cansaço das nossas democracias, onde a tentação da pureza e o império da lei cedem o lugar a um verdadeiro programa político? “Estas novas são velhas, e são novas todos os dias”, diz-se a páginas tantas deste clássico que ainda não terminou de dizer tudo aquilo que tem para nos dizer. Mas Medida por Medida é acima de tudo o lugar que nos permite continuar a acompanhar de perto o trabalho do encenador Nuno Cardoso e do tradutor Fernando Villas-Boas, artesãos que atacam o texto e a cena com uma tremenda ambição: tornar clara a sua complexidade.
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